O vestido de noiva: a tradição e o peso da escolha

Este texto foi escrito durante as aulas da disciplina Comunicação e Linguagens (do mestrado em Comunicação e Territorialidades da UFES) a partir da leitura do livro Mitologias, de Roland Barthes. A proposta era seguir a linha de raciocínio e o estilo do filósofo francês e aplicar a um tema à nossa escolha. Resolvi falar sobre o vestido de noiva e toda a carga simbólica que a escolha dele carrega. A princípio pode soar demasiadamente dramático (como dito, a proposta era inspirar-se no livro de Barthes) mas pode ser também uma boa reflexão para entender porquê esta é uma escolha tão delicada para a maioria das mulheres.

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Através do que veste, uma pessoa tem características que lhe são atribuídas e produz-se um discurso. Dependendo do contexto em que estão inseridas, todo tipo de indumentária é capaz de produzir um discurso. Para a mulher, destaca-se o vestido de noiva, o traje possivelmente mais caro da sua vida, que vai ser usado uma única vez e a transformar em um personagem vivido por um dia da sua vida.

A narrativa que se cria em torno do casamento é diretamente influenciada pela escolha do vestido da noiva, uma vestimenta carregada de simbolismos em todas as culturas em que ele está presente, e a mídia é um dos fatores que contribui para a construção do mito em torno do casamento, sendo o vestido a representação máxima deste evento.

Nas capas de revista, a noiva é retratada como uma imagem de perfeição, as modelos posam de costas – pois não é suficiente para a noiva um belo rosto, ela precisa estar perfeita de todos os ângulos. Pode também ser feito um close no rosto da noiva, pura, intocada, angelical, feliz.

A noiva é a mulher em um pedestal, todos os olhares se voltam para ela, é a entrada mais aguardada da noite e – espera-se – em um traje branco de renda, a materialização da pureza, o status, o pertencimento à uma estrutura familiar. Pelo protocolo, é a última a entrar, conduzida pelo pai, o chefe da família, pronta para ser entregue ao homem que se tornará seu marido. Nesse momento é vista como objeto cuja propriedade está sendo transferida de um homem a outro. E durante todo o tempo que duram os preparativos, especula-se sobre o vestido, ela sofre a pressão para ser o destaque, o ponto alto, a mulher mais bonita da festa.

Na maioria das culturas ocidentais, o branco é visto como símbolo de pureza – desde que a rainha Vitória mudou os protocolos vigentes, casando-se por amor em vestes simples e brancas, fora do padrão de casamentos de membros da família real. A rainha Vitória pode ser uma representação do mito do amor romântico, neste contexto, faz com que o vestido branco adquira o significado de pureza que se espera da noiva no dia do casamento. Assim, mesmo atualmente, quando a mulher decide optar por outra cor no vestido de noiva é considerada ousada pois já estabeleceu-se um padrão e a construção do mito sobre ele. Importante aqui destacar que o vestido branco foi exclusivo para as mulheres virgens usarem nos casamentos, quando a mulher não era mais virgem o próprio vestido poderia denunciar sua situação.

O casamento é o rito de passagem, quando a mulher sai do seu papel de filha e inicia sua nova vida, como uma esposa – no passado, ela deixava de ser a virgem para tornar-se uma mulher adulta e respeitada. As tradições mudam e hoje isso não acontece mais desta forma, mas o casamento ainda é um rito de passagem onde a mulher é lembrada do seu novo papel, de esposa.

 

Ao interpretar o sucesso Like a Virgin no MTV Music Awards, em 1984, Madonna escolheu um traje de noiva branco para representar essa mulher virgem. Apesar da performance sensual, é o tradicional traje branco de tule adornado com um véu a escolha da cantora para representar sua personagem intocada (“touched for the very first time”).

Quando casais famosos anunciam seus enlaces, as revistas iniciam especulações sobre o vestido da noiva (quem é o designer, qual o valor estimado, quantas pessoas trabalharam na produção) e a partir do vestido, constitui-se uma narrativa sobre o casamento. O noivo pode ser um ator ou cantor famoso mas aqui é o momento que a mulher adquire seu destaque dentro do seu personagem noiva e o ponto-chave para constituição deste personagem – o vestido –  cria o arquétipo da noiva onde, dependendo da escolha do vestido, a narrativa pode mudar.

Os casamentos reais são a representação perfeita dos contos de fadas modernos, uma novela da vida real que envolve romance, moda, sonho, prestígio, tudo em um mesmo pacote. O público assiste, se emociona e é convidado virtualmente a fazer parte do grande evento e o vestido da noiva é, mais do que nunca, a imagem mais aguardada. O casamento do príncipe William com a Duquesa de Cambrigde Kate MIddleton reuniu cerca de 2 milhões de espectadores em torno do mundo, o dobro do casamento de sua mãe, princesa Diana com o príncipe Charles. Deste espetáculo, o vestido torna-se a referência da época (até que outro casamento de príncipes aconteça) e é replicado por noivas do mundo todo como a representação do ideal de perfeição a ser alcançado.

Assim o vestido de noiva carrega uma bagagem de simbolismos que, mesmo com mudanças de padrões, revolução sexual e ciclos de moda, ainda é um traje com o poder de proporcionar à mulher que o veste uma aura de pureza mesmo que ela não o seja – de acordo com o conceito original. Não é o vestido em si puramente, não é o que o compõe (tecido, forma, cor), é a mensagem transmitida ao longo dos anos. É a curiosidade e o suspense que se forma em torno dele, o status social que o vestido vai proporcionar a partir do dia do casamento

E depois de tantos anos, o vestido de noiva ainda atribui a cada mulher, os mesmos atributos de tantas outras do passado, e ela assume seu papel dentro desta narrativa que se repete. Ao vestir-se com esse símbolo, feito um figurino, transforma-se num personagem e vivencia a sua história. A noiva, pura, linda, unindo-se com seu príncipe, felizes para sempre.

 

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